segunda-feira, 13 de junho de 2016

sortudo

Naquele arrepio de madrugada
Sentes-te só, mesmo de mão dada.
De um corpo que não existe,
Mas que te despertou.

Num rasgar de luz
Fechas de novo os olhos
E sorris.
Ele diz-te "até já, encontramo-nos mais logo".

Sonhas com o seu regresso
Como mais nada desejasses.

Sonhas com a sua ida
Como mais nada te entristece-se.

Mas como mulher, tu segues.
Abres os olhos e a persiana.
Dizes "bom dia" sem vontade
E sorris, com um que não é teu.

Naquele arrepio de madrugada
Não vais sozinha,
Vais de mão dada
Com o sortudo que te acordou.

quarta-feira, 1 de junho de 2016

Seja apenas mais um dia

Entre o campo e o mar há sorrisos que parecem o de uma criança. Azul e rosa continuam a ser as cores que mais distinguem o menino da menina, mas afinal são ambos crianças que carregaram um dia o sonho de se vestir de branco e preto.
Apesar de hoje em dia já não ser tão usual seguir a tradição foi ainda com o véu que se protegeram do arroz e das pétalas de rosa. Num dia em que os dias contam sem contar surgiu o compromisso de um dia eterno.
Sem nomes apresento-os como o rosa e o azul. São eles crianças de dois dígitos de idade e de aliança no dedo anelar da mão esquerda. Da direita para a esquerda surge o momento sério do assumir um compromisso, daqueles que as crianças não gostam, mas que melhor sabem levar até ao fim.
Ninguém melhor do que elas para guardar um segredo, sem hipocrisias ou tentativas de fazer-se melhor do que o outro. São quem mais se cinge à importância de se saber ser fiel, de honrar compromissos e de proteger quem quer que seja até ao fim.
"Se magoaste a minha amiga, magoaste-me a mim" é a frase que mais dizem numa discussão que em nada lhes remete. Mas se entre o marido e a mulher não se mete a colher, ao longo dos tempos somos educados (ou supostamente ensinados) a saber distinguir o bem do mal, o momento em que devemos falar daquele que respondemos com o silêncio.
Ausência de ruído foi o que nunca aconteceu, apenas em momentos de homenagem a quem está presente ou mesmo para aqueles que o céu era "tão longe".
Espírito jovem e de plena felicidade é o que se vive nestes dias de festa. Entre mensagens, prato de peixe, recordações, prato de carne, um passo de dança e a sobremesa reforçam-se laços entre conhecidos e desconhecidos. Com quem não se conhece fica o gosto de partilhar e de testemunhar o momento do rosa e do azul. Com quem se conhece bem fica, por vezes, a chave e o boquê. (Mas essa história de duas crianças fica para mais tarde contar)
Hoje, dia da criança, reflete-se sobre a importância que têm os seus direitos e neste caso o direito à "proteção especial e a todas as facilidades e oportunidades para se desenvolver plenamente, com liberdade e dignidade".
Seja qual a idade o "prometo proteger-te como tal" é sinónimo de uma relação seja ela de amizade ou que a essa amizade lhe seja acrescentada amor. Não será te todo que aquela criança sobre a qual tantas histórias escrevo e quero escrever diz que "felicidade é ser criança com a consciência de o ser".


Saberão bem aqueles que já o afirmaram
A vontade de que seja apenas mais um dia.
Afinal o coração bate
Por quem os dias contam sem contar.

Todos somos crianças até que os próprios o afirmam em contrário. Os direitos das crianças, todos eles, existem nos direitos da mulher e do homem, afinal o sonho de um dia andar num carro amarelo perdura e não importa a idade.




terça-feira, 24 de maio de 2016

Um céu de estrelas e de laternas dos smartphones

"A partir de agora deixam de ser milhares de pessoas para ser milhares de estrelas". Foi assim que Mika se apresentou aos cerca de 75 milhares de pessoas presentes. Na minha opinião revelou-se a surpresa de uma noite em que o público ansiava o regresso das lendas a palco.
Entre os mais antigos êxitos do artista britânico foi com a música Underwater que fez encher de numerosas luzes o recinto do festival de música.
Familiarizado com a música portuguesa, "obrigado" foi a palavra carinhosamente recebida pelo público com múltiplos aplausos. Porém o artista não se ficou pela língua portuguesa. Com uma história contada na primeira pessoa relembrou a sua noite anterior pelo Bairro Alto. A convite de alguns amigos o artistas desafiou-se a cantar o fado.
Pela primeira vez em estreia absoluta, Mika fez-se acompanhar de dois guitarristas portugueses em pleno Palco Mundo do Rock in Rio Lisboa. Uma guitarra clássica e outra de fado fizeram deste o momento mais emblemático da noite que com a musica "meu fado" o artista fez render o público à sua própria cultura e tradição. Mika trouxe ainda Mariza a palco, a própria artista da música "Meu fado meu".

(Se somos portugueses orgulhosos da nossa cultura porque apenas nos lembramos dela quando os estrangeiros nos "forçam" a ouvir as cordas de uma guitarra?)

Descontraído, familiar, deslocado do movimento citadino de lisboa, consumista e festivaleiro é como descrevo o ambiente sentido em pleno parque da Bela Vista.
Sim é verdade que quase nada podemos levar para dentro do recinto, assim como o preço inflacionado de qualquer produto alimentar que se adquira dentro do mesmo. Dois euros e meio é o preço de uma fatia de pizza e dois euros o de uma garrafa de água. Faça as contas dos verdadeiros interessados num festival em que nem todos entram face ao preço, apesar da qualidade. Um balanço de contas e de escolhas é aquilo que o festival, assim como qualquer atividade de entretenimento, levanta dentro de cada um dos participantes antes ou depois de adquirir o bilhete para o evento.

Seis é o número de palcos que existem e duas dezenas os artistas que o cartaz apresentava. Num mundo de escolhas a evolução das tecnologias facilitou a organização do tempo e das distâncias. Com a aplicação oficial do evento tornou-se possível agendar concertos e deixar, ao mesmo tempo, que o encontro pelos diversos géneros musicais me surpreendessem.
Apesar da agenda preenchida os ritmos originais do Brasil não poderiam faltar numa noite tão bem acompanhada. Se de coração cheio vamos vivendo diferentes experiências foi por uns momentos que imaginei o chinelinho no dedo, o vestidinho branco e uma praia do Brasil mesmo ali. Afinal temperatura não foi preciso imaginar, assim como o meu par de dança. Bastou o sorriso e uma dança pontual para tornar a noite mais quente e mexida como num filme qualquer que termine com um copo de caipirinha na mão.

Se de lendas se escrevem histórias foi com o "Queen" que o Palco Mundo encheu. "Love of my life" (musical e metaforicamente) fez a minha noite. Mais uma vez com uma simples guitarra e o gosto pelos anos de experiência que Brian May fez do dia 20 do mês que o seu nome não esquece uma noite de memórias.
Para os que mais conhecem ficou a homenagem ao "único" Freddie Mercury proferido pelo atual cantor que acompanha a banda com 46 anos de existência. Foi nas palavras de Adam Lambert, tão caracterizado pela ousadia do vestuário e das expressões enquanto canta, que agradeceu e repetiu a "honra" que é pisar o palco com grandes nomes da música internacional.
Também Roger Tayler, o baterista fez qualquer membro da audiência suspirar de alivio por cada uma das suas respirações no fim de cada um dos seus solos, intensos e agitados, que levantaram as mãos do público ao mais ruidosos aplausos. Se o cabelo branco ou os anos de vida são sinónimo de talento então o "loiro de olhos azuis" não perdeu o brilho nos olhos das suas secretas admiradoras.
"We are the champions" foi o tema que encerrou o concerto, mas isso nunca seria de admirar face a mais uma vitória do Sport Lisboa Benfica no campeonato nacional de futebol.
Desta frase fica somente a provocação de um momento final de noite em que o ambiente familiar e de família concretizou o sonho do aconchego dos braços de quem nos faz arder o coração, a música, talvez.










terça-feira, 10 de maio de 2016

Haveria eu...

Se o silêncio fosse ter voz
E ter voz um modo de agir,
Agiria em conformidade com os meus pensamentos,
Pensamentos esses que não terminam.

Erra apenas quem arrisca
E arrisca apenas quem tem medo.
Medo da desilusão,
Anseio da virtude.

Sabe Deus o quanto queremos pedir desculpa
A quem desiludimos
Ou sentimos ter desiludido.

Pior de tudo é não saber,
Como falar,
Como agir,
Como procurar devolver o sorriso.

Se as ações fossem feitas
E os pensamentos refletidos,
Haveria eu de pedir desculpa
Sem o ser preciso fazer.

Afinal agir é ter voz
E ter voz é falar pelo silêncio