quinta-feira, 10 de setembro de 2015

Quotidiano pelo mundo #1

Finalmente uma pausa! Um regresso fixo a casa e à minha tão agradável cama. Um mês inteiro a dormir num carrimate, esteira ou colchonete (depende da zona) nunca tinha desejado tanto encontrar o meu pijama e os meus lençois postos de lavado.

A primeira aventura: Espanha.
Se estás cansado do mesmo parque de campismo anos e anos sem conta, se até já conheces o Sr. António, que vende o pão alentejano, acabadinho de sair do forno, mal acordas com o choro de um bebé ou o riso de mais um grupo de amigos que acabou de se deitar, tenta Espanha.
Os preços não são muito diferentes dos nossos. Claro que apontei sempre como um dos pontos mais negativos a dificuldade em ter acesso gratuito à internet. Sim, ao que parece pelos parque onde andei a palvra Free e a palavra Wi-Fi não tinham uma relação de simbiose. Contudo, as praias, sobretudo a água, compensa todo aquele desligar das redes sociais.
Outro dos aspectos que mais se faziam notar era a quantidade de nudistas nas praias. Qualquer que fosse a idade, o sexo ou o companheiro todos estavam como tinham chegado ao mundo, porém numa das viagens de comboio que fizemos concluímos que quanto mais perto de Barcelona nos encontramos maior é a diversidade de bikinis (e calções de banho) possível de se ver. Bem melhor para aqueles que procuram ver as tendências da moda deste verão.

Uma das paragens obrigatórias se pretendes fazer férias pela zona da Catalunha: Montserrat
A uma hora e pouco de distância de Barcelona localiza-se o santuário de Montserrat, entre montanhas e com uma paisagem inacreditável.
Conta a história que um dia encontraram uma representação da Virgem Negra, todavia o peso era tanto que acabou por se tornar mais fácil levar o mosteiro até ao topo do que descer com a estátua toda a montanha. Hoje em dia é possível subir com o carro próprio, pagando estacionamento, ir a pé ou aproveitar o teleférico, que nos proporciona uma visão global da beleza natural do local. Funciona, ainda, no seu interior uma escola de música para meninos até aos 14 anos, das mais antigas da Europa, de onde todos os dias, excepto no mês em que lá fui, os rapazes saem à rua para poder partilhar com os crentes e não crentes as suas habilidades e aprendizagens musicais.

Prosseguindo a jornada por Espanha, em que o Portuñol ia tomando conta das conversas de carro e das paragens a meio para mais uma bolachinha ou um esticar de pernas chegámos a Barcelona. Viemos de Comboio e depois de tantos dias apenas com areia, mar e sombras do parque de campismo, chegamos à Praça de Catalunya, mesmo no centro da cidade. O que sempre fazemos nestas grandes cidades é comprar um bilhete de um dos autocarro turísticos que circulam por toda a cidade e nos vão contando um pouco da sua história e relevando alguns dos seus segredos. É para mim uma grande vantagem aproveitar este sistema quando pouco é o tempo que se tem em cada local e o máximo queremos retirar da mesma. Ah além do conjunto de descontos que nos oferecem e da coleção de auscultadores que podes ir fazendo.
Uma cidade extensa e com bastante movimento, conquista-nos pela simpatia dos que vão passando por nós, pela agitação da tão famosa rua La Rambla, onde beber um sumo de fruta natural ou comer uma salada de frutas não pode faltar na check list de um turista. A quantidade de floristas que há na mesma avenida, os jornais e as revistas que se vão misturando com a enorme quantidade de recuerdos que nos vão despertando, mais do que o olhar, o coração, daqueles que estão mais longe. Desde a zona marítima, que se estende pelos 5km de praias, subindo até à zona mais pedonal da cidade onde entre ruas e ruelas vamos sentindo o "cheiro" de uma guitarra. Chegamos à famosa Casa Bastlló Fundació Antoni Tàpies. Começa a dar nas vistas a arquitectura desta cidade. Passamos pela La Pedrera, obra de Gaudí considerada Património Mundial pela UNESCO, percorremos com o olhar todas as suas curvas, que nos relembram as ondas do nosso mar, e as suas varandas, que mais não parecem do que algas, como aquelas que o nosso mar salgado vai trazendo em cada onda.
A Sagrada Família já se vê ao passarmos pela Avenida Diagonal, que como a própria o indica, atravessa toda a cidade na Diagonal. As suas torres são enormes e a quantidade de símbolos que apresenta torna a sua leitura e observação num processo demorado e complexo. Porém tal como disse o próprio arquitecto a um dos demais, que questionava o terminar da sua obra, "o meu cliente tem tempo" tal como nós devemos dar tempo para tentar ler e interpretar tamanha construção.
O Parque Guell e o seu mosaico desorganizado, técnica do Modernismo, conquista-nos com as suas cores e com a sua liberdade de pensamento. Muitos são aqueles que o visitam, mas poucos são os que certamente entendem a sua conjuntura. Muitos são os que nos seus bancos se sentem e pensam, enchem-se de fotografias e sorrisos, trocam beijinhos e abraços e vêm, apenas isso, vêm a cidade. Entre as duas torres da saída do parque não cabe Barcelona, muito menos o sorriso que a cidade em ti desperta.
A viagem continua e os segredos são revelados, a história continua a ser contada e as paragens em que podes sair tornam-se espelho da viagem que tu próprio idealizaste.
Os jovens rapazes deliciam-se quando vêm o tamanho do Estádio do Barcelona, a quantidade de pessoas que o futebol consegue atrair é questionável, mas, certamente, mais interessante seria o próprio relvado do que a estrutura cinzenta que o envolve. Quem sabe um dia compreenda toda este fascínio por uma bola de futebol.
Uma cidade em que facilmente nos perdemos pela sua naturalidade e facilmente nos encontramos pela sua organização.
Desde os edifícios e as diferentes arquitecturas à variedade de sabores e dos cheiros de todos os produtos que o mercados no oferece.
Desde as histórias que remontam à época dos descobrimentos, ao modernos mosaicos que vão cobrindo os parques e as estátuas que deixam em dúvida qualquer olhar.
Desde a sensação de que podíamos viver ali, à dificuldade em conseguir ter tempo para ler tanto coisa em tão pouco tempo. Barcelona foi uma cidade que me fez querer voltar ainda estava eu a terminar o percurso do autocarro.
Barcelona é daquelas cidades clichés de todos os turistas e de todos os jovens sonhadores, porém, é uma cidade que não desilude, que não se mostra se tu não a quiseres ler e sentir. É daquelas cidades que só conhecendo sentes a saudade de voltar a casa, porque o bom de viajar é sempre regressar ao nosso país, à nossa cidade e querer voltar porque houve tanto que ainda ficou por contar.






Montserrat

Paque Guell


Costa Brava
Sagrada Família 

segunda-feira, 29 de junho de 2015

Tic-Tac

O tempo passa e tudo o que fica são memórias. Memórias dos dias que pareciam não ter fim, onde as horas representavam mais do que a eternidade do momento ou a pressa de voltar a casa.
Perdidos no tempo não dávamos conta, nunca demos, e sempre o louvá-mos de não saber onde estão os ponteiros do relógio. Porquê contar os dias que faltam, quando esses dias não são dias. Quando essas horas não são mais que lágrimas que te vão escorrendo no rosto.
Os teus olhos nos meus, cruzam o sabor salgado do oceano com a doçura da avelã, mas esse sabor de gelado só nós o conhecemos, só nós o provámos.

Deixa que o tempo passe, de que vale guardá-lo? De que vale deixá-lo preso a ti? Traz-te mais felicidade, mais momentos eternos? Ou serão esses dias, a escorregar-te pelos dedos das mãos, que te trarão a eternidade?
Trazes contigo os livros da escola e eu comigo um caderno de rascunhos, quem me dera saber desenhar, mas tudo o que sei esboço com palavras, com linhas e traços. Nada me pareço bem, nada me parece concreto. Tudo parece vazio e tudo parece silencioso.
Deixa que o tempo passe, talvez ele te traga fotografias ou folhas de jornal onde, também tu, um dia, vais escrever. Esse jornais que agora não passam de cultura e de interesse, talvez um dia tragam o teu nome desenhado, com os traços e as linhas que só tu sabes aplicar.
Deixa que o tempo passe, mas não o deixes correr. Não deixes que ele te faça tropeçar nas barreiras ou te engane na partida para os 200 metros de velocidade.
Deixa que o tempo passe e te suspire ao ouvi, as tuas, as vossas histórias. Só ele sabe quando, só ele sabe como e não te diz para que não queiras correr tu à frente dele, para que não sejas tu a ser desqualificado da prova por falsa partida.
Deixa que o tempo passe, um dia vais agradecer-lhe.

Rita Flores

segunda-feira, 15 de junho de 2015

Será mesmo este o preço a pagar?

Hoje sinto-me revoltada e porquê? Muito simples. Não, não é por estar a perder os ricos dias de sol sem poder estar numa praia ou numa piscina. Hoje estou revoltada porque pleno século XXI parece, que a mulher, ainda não pode andar na rua.
É verdade que todas as mulheres gostam de receber um elogio ou um sorriso mais atento de alguém, mais ainda se for de alguém do sexo oposto. Contudo, não é de todo agradável ouvir piropos desadequados ou mal intencionados.

Muito sinceramente eu não quero saber se estás solteiro ou comprometido, se tens interesses mais físicos ou menos físicos em mim.
Muito sinceramente não preciso que me digas se tenho umas pernocas jeitosas ou um rabinho interessante.
Muito sinceramente, quando fazes esse tipo de comentários não revelas mais do que infantilidade perante o grupo de amigos que vai contigo no carro, não revelas mais do que um desinteresse pela mulher na verdadeira acepção da palavras. Muito sinceramente, essas coisas, dizem-se no silêncio, ao ouvido dela, como se de um suspiro de amor se tratasse.

Falamos tão abertamente nas redes sociais, falamos tão incessantemente do direito à liberdade de expressão e do quanto nos sentimos impugnados quando alguém condiciona o exercício da mesma. Então e o direito ao respeito? Os direitos da mulher?
Lutou-se pela liberdade e a todas agradeço por isso, mas não basta termos direitos no papel se não há quem os cumpra. Tudo bem que muitas vezes exigimos ser tratadas como igual quando por igual não tratamos os homens, mas calma isso seria pano para mangas.

Meus caros senhores, a mulher, tal como o homem, é um ser humano que tem qualidades e defeitos. A mulher, tal como o homem, tem dias em que acorda com o cabelo quase vindo do cabeleireiro e outros que parece não ter sequer uma escova de cabelo em casa.
A mulher, tal como o homem, tem direitos e deveres aos quais deve o seu maior respeito e cumprimento.
A mulher, tal como o homem gosta de receber elogios e de ser criticada.
A mulher, tal como o homem, gosta de ser conquistada e respeitada. Gosta sobretudo de sorrir e deitar umas belas gargalhadas cá para fora. Não precisa que lhe gritem, nem precisa que a ignorem, precisa sobretudo de saber viver na sua liberdade.
Conquistamos a liberdade, mas será mesmo este o preço a pagar?

Rita Flores


quinta-feira, 11 de junho de 2015

"Quero ter a sorte de um cartoon"

Tudo parece tão mais fácil nos livros, tudo parece tão mais perfeito e "lindo" nas letras das músicas que repetidamente tocam na rádio.
Tudo parece tão mais desejado nos desenhos animados ou nos romances que os outros me contam.

Naquilo que me contam o tempo parece não ter fim, parece não haver horários a cumprir, exames para os quais estudar, grupos que ensaiam ou reuniões nas quais temos de estar presentes.
Nas histórias que me contam a distância era maior, talvez a lágrima mais constante, mas o que eram eles se não a plenitude da confiança e do amor?
Nas histórias deles não havia telemóvel, tudo era mais paciente, mais directo e mais trapalhão, por vezes, mas, havia tempo!
Havia tempo para si, para o outro e para eles.
Havia tempo para se conhecerem devagar e junto à praia.
Havia tempo para mais um sorriso ou mais um post-scriptum numa carta.
Se havia tempo? Não esse era escasso, mas o que é o tempo se não um bocadinho de barro que cada um molda, ajuda e é ajudado a moldar?

Ai o tempo... quem nos dera a nós poder falar do tempo sem que o sentisse-mos escorrer pelos dedos das mãos.
Vivemos na época do imediato: os nossos corações aceleram quando não recebemos logo uma mensagem de resposta, ficamos logo assustados quando nos deparamos com o imprevisível.
Não somos exigentes com o nosso cumprimento de horas, mas, então, o que pedimos dos outros? Que o avião parta exactamente na hora que o bilhete anunciava? Que nos respondam a toda a hora onde estão ou o que fazem?
Que mais poderemos exigir do que aquilo que, também nós, somos capazes?

Não fiquemos pelo contentamento, não exige-mos o impossível ou o utópico.
Exige-mos o sonho!
"Recordemo-nos sempre de que sonhar é procurarmo-nos"